Hábitos e bem-estar

Ansiedade matemática em crianças: sinais, causas e como ajudar

Como é a ansiedade matemática dos 5 aos 10 anos, por que ela começa, como os sentimentos dos adultos pesam e jeitos calmos de ajudar em casa e com a escola.

  • 5–10 anos
  • Pré-escola–4º ano
  • 9 min de leitura

Resposta rápida

Ansiedade matemática é tensão ou medo diante da matemática, que pode travar o raciocínio mesmo quando a criança sabe a resposta. Ela pode começar já no 1º ano. Ajude mantendo a calma, elogiando o esforço e as estratégias em vez da rapidez, deixando o cronômetro de lado e com treinos curtos. Fale com a escola se a preocupação voltar sempre, e com o pediatra se ela piorar ou atrapalhar o sono ou a escola.

Pontos principais

  • Ansiedade matemática é um sentimento, não falta de capacidade. Num grande estudo no Reino Unido, a maioria das crianças com ansiedade matemática tinha desempenho normal.
  • Ela pode começar cedo: pesquisadores a mediram em alunos do 1º e do 2º ano.
  • Seus sentimentos sobre a matemática contam. Num estudo nos Estados Unidos, filhos de pais ansiosos com matemática aprenderam menos ao longo do ano, mas só quando esses pais ajudavam com frequência na lição de casa.
  • O que ajuda: treino calmo e curto, elogio ao esforço e às estratégias, nada de cronômetro e jogos em vez de exercícios repetitivos.
  • Fale cedo com a escola, e com o pediatra se a preocupação não passar, piorar ou atrapalhar a escola, o sono ou as brincadeiras.

O que é ansiedade matemática?

Ansiedade matemática é uma sensação de tensão, preocupação ou medo em situações que envolvem matemática. Pesquisadores da Universidade de Cambridge a descrevem como sentimentos de apreensão, tensão ou desconforto ao fazer matemática e destacam que ela é sobretudo um problema emocional.

A ansiedade ocupa a memória de trabalho, a “mesa” mental onde seguramos os números enquanto calculamos. Por isso uma criança ansiosa pode dar um branco em 7 + 5 na mesa da cozinha e responder sem esforço no carro.

  • Pode começar cedo. Num estudo nos Estados Unidos com 154 alunos do 1º e do 2º ano, a ansiedade matemática já andava junto com um desempenho menor em matemática entre as crianças com memória de trabalho mais forte.
  • Não é o mesmo que ser “ruim em matemática”. Num projeto no Reino Unido com mais de 1.700 alunos, a maioria das crianças com ansiedade matemática tinha desempenho normal.
  • Pode se alimentar sozinha. A ansiedade atrapalha o desempenho, e o desempenho pior aumenta a ansiedade. Os pesquisadores de Cambridge descrevem um círculo vicioso, por isso ajuda cuidar tanto dos sentimentos quanto das habilidades.

Ela também não é o mesmo que discalculia. A equipe de Cambridge descreve a discalculia do desenvolvimento como uma dificuldade cognitiva para adquirir habilidades matemáticas, enquanto a ansiedade é emocional, e mostra que os dois problemas pedem apoios diferentes. Quem diferencia um do outro é uma avaliação feita por profissionais, não um teste caseiro.

Como a ansiedade matemática aparece dos 5 aos 10 anos?

Crianças pequenas raramente dizem “estou ansiosa com a matemática”. Procure padrões que aparecem com a matemática, mas não em outras situações. Qualquer sinal isolado pode ter outras causas, do cansaço a um dia difícil na escola.

5 a 7 anos

  • Choro, birra ou uma dor de barriga repentina quando a lição de matemática aparece
  • Dizer “eu não consigo” ou “eu sou burro” antes mesmo de tentar
  • Chutar respostas ou copiar, só para acabar logo
  • Esconder que conta nos dedos, como se fosse cola

8 a 10 anos

  • Travar em provas com tempo ou perguntas rápidas e depois saber as respostas
  • Dizer “eu não sou de matemática” ou se comparar com os colegas
  • Fugir da lição, “perder” as folhas ou pedir para faltar em dia de prova
  • Contar que o coração dispara, as mãos suam ou dá enjoo na aula de matemática

Dica Procure um padrão

Uma noite ruim não é ansiedade matemática. Um padrão que volta sempre, e que aparece com a matemática e não com a leitura ou as brincadeiras, merece uma conversa tranquila com a criança e com a professora.

Por que a criança fica ansiosa com a matemática?

Raramente há uma causa só. A equipe de Cambridge concluiu que a ansiedade matemática pode surgir de vários fatores juntos, como gênero, habilidades cognitivas e uma tendência geral à ansiedade, a remoer preocupações ou a entrar em pânico sob pressão. E lembra que pais e professores precisam saber que a própria ansiedade com a matemática pode influenciar as crianças.

A ansiedade matemática de pais e professores

As crianças percebem como nos sentimos com os números. Num estudo com alunos do 1º e do 2º ano publicado na revista Psychological Science (Maloney e colegas, 2015), filhos de pais ansiosos com matemática aprenderam significativamente menos ao longo do ano e terminaram mais ansiosos, mas só quando esses pais ajudavam na lição de matemática com frequência. A ansiedade dos pais não previu o desempenho das crianças em leitura.

Algo parecido aparece na sala de aula. Quando professoras do início do ensino fundamental eram mais ansiosas com a matemática, as meninas das turmas delas terminavam o ano com desempenho pior em matemática, por meio das crenças sobre quem é bom em matemática (Beilock e colegas, 2010).

Nada disso quer dizer que pais ansiosos devem fugir da matemática; quer dizer que o jeito de ajudar importa. Num estudo animador com 587 alunos do 1º ano, famílias que faziam juntas pequenos problemas de matemática em forma de história, num app de tablet, viram as crianças aprenderem mais matemática no ano do que num grupo que fazia só leitura, e o ganho foi maior para filhos de pais ansiosos com matemática (Berkowitz e colegas, 2015).

O que ajuda em casa? 8 coisas para experimentar

  1. Cuide das suas palavras sobre matemática. Troque “Eu nunca fui de matemática” por “Matemática me exigiu treino, e ainda exige.” Os pesquisadores de Cambridge sugerem que pais e professores enfrentarem a própria ansiedade pode ser o primeiro passo para ajudar as crianças.
  2. Ajude na lição de forma curta e calma. Se a matemática deixa você tenso, ajude menos vezes, mas melhor: leiam a pergunta juntos, pergunte “O que você já sabe?” e se afaste. “Vamos perguntar à professora” é uma ótima resposta quando você não sabe.
  3. Acrescente matemática que não é lição. Jogos de tabuleiro, cozinha e compras dão à matemática cara de brincadeira; veja nossos jogos de matemática em casa.
  4. Elogie o esforço e as estratégias, não a rapidez nem a inteligência. Diga “Você tentou dois jeitos, e o segundo deu certo”, não “Você é muito inteligente”. Num estudo nos Estados Unidos, crianças cujos pais elogiavam mais o esforço quando elas tinham de 1 a 3 anos acreditavam mais, aos 7 ou 8 anos, que a capacidade pode crescer.
  5. Dê nome ao sentimento e diminua a tarefa. “A matemática está parecendo assustadora agora. Vamos fazer só as duas primeiras.” Pequenas vitórias reconstroem a confiança.
  6. Ensine um jeito de se acalmar. Treinem uma respiração lenta, de barriga, quando a criança estiver tranquila, para ela estar pronta quando a matemática apertar. A Academia Americana de Pediatria recomenda ensinar habilidades como respiração lenta e conversa positiva consigo mesmo em momentos calmos.
  7. Trate o erro como informação. Pergunte “O que esse erro conta para a gente?” e mostre os seus: “Na primeira vez dei 42 em 34 + 18. Esqueci o vai um; é 52.”
  8. Não fuja da matemática. Fugir alimenta a ansiedade; pouco, sempre e possível é melhor que nada. Como diz a Academia Americana de Pediatria, a meta é aprender a lidar com o medo, não evitá-lo.

Dica Experimente hoje à noite

Joguem uma rodada de um jogo de cartas sem certo ou errado no papel, como a batalha em que a carta maior ganha. Riam, fiquem abaixo de 10 minutos e não falem de lição.

As provas com tempo estão deixando meu filho ansioso?

Algumas turmas usam testes curtos com tempo para a tabuada e os fatos básicos, e os especialistas discordam sobre eles. Jo Boaler, professora de educação matemática em Stanford (youcubed), argumenta que as provas cronometradas provocam o início precoce da ansiedade matemática, porque o estresse bloqueia a memória de trabalho de que a criança precisa para lembrar o que sabe. Já um guia de práticas de 2021 do What Works Clearinghouse, do Departamento de Educação dos Estados Unidos, encontrou evidência forte de que atividades curtas com tempo ajudam crianças com dificuldade em matemática. Ele aconselha usá-las só com conteúdo já ensinado, por 1 a 5 minutos, com o progresso mantido em particular, a criança batendo o próprio placar e o acerto como meta.

  • Em casa, deixe o cronômetro de lado. A escola já dá chances de ser rápido; a casa pode ser o lugar onde a matemática é calma.
  • Se a criança adora um desafio, deixe que ela dispute consigo mesma: um minuto, depois tentar bater o próprio placar. Nunca compare irmãos.
  • Pergunte à professora como os testes com tempo são usados. São treino ou valem nota? A criança poderia fazer menos questões, ou sem tempo, por um período?
  • Treine estratégias, não rapidez. A rapidez vem do entendimento; veja cálculo mental e tabuada.

Quando falar com a escola (ou com o pediatra)?

Fale com a professora cedo. Você não está reclamando; está contando algo que ela precisa saber, e os professores muitas vezes veem outro lado da criança. Vale uma conversa se:

  • as preocupações com a matemática voltam sempre;
  • a criança foge da matemática na escola ou diz que passa mal na aula;
  • a lição termina muitas vezes em choro, mesmo quando é curta;
  • a matemática continua muito difícil apesar de uma ajuda calma e regular em casa.

Perguntas úteis: O que meu filho acha difícil? Ele trava nas provas ou também no dia a dia? Quais estratégias e palavras a turma usa, para usarmos as mesmas em casa? Existe um jeito pequeno e sem pressão de reconstruir a confiança?

Fale com o pediatra se a preocupação não passar ou piorar, ou se atrapalhar a vida diária, como dormir, brincar ou ir à escola: são sinais que a Academia Americana de Pediatria lista para buscar ajuda com a ansiedade. Vale o mesmo se a preocupação se espalhar muito além da matemática.

Dificuldades emocionais e de aprendizagem pedem apoios diferentes. Se a matemática continuar difícil mesmo com a criança calma, pergunte à escola se vale uma avaliação das habilidades numéricas dela. A Lei nº 14.254/2021 garante a alunos com transtornos de aprendizagem acompanhamento na escola, com identificação precoce e encaminhamento para diagnóstico.

Como fazer a matemática voltar a ser segura?

  • Comece um pouco abaixo do nível dela. Uma sequência de vitórias fáceis é o caminho mais rápido de volta ao “eu consigo”. Depois, suba devagar.
  • Sessões curtas. De cinco a dez minutos, terminando com um acerto.
  • Progresso em particular. Compare a criança só com ela mesma: “Semana passada isso era difícil. Olha você agora.”
  • Comemore as tentativas corajosas, não só os acertos. Os pediatras recomendam elogiar e recompensar o comportamento corajoso. Para o quadro geral, veja como ensinar matemática em casa.

Perguntas frequentes

Uma criança de 6 anos pode ter ansiedade matemática?

Pode. Pesquisadores mediram a ansiedade matemática em alunos do 1º e do 2º ano, e em algumas crianças ela já andava junto com um desempenho menor. Por isso vale reagir cedo e com delicadeza.

Ansiedade matemática é o mesmo que ser ruim em matemática?

Não. Num grande estudo no Reino Unido, a maioria das crianças com ansiedade matemática tinha desempenho normal. Mesmo assim, a ansiedade pode impedir a criança de mostrar o que sabe, principalmente com pressão de tempo.

Ansiedade matemática é o mesmo que discalculia?

Não. A discalculia é uma dificuldade cognitiva para aprender matemática, e a ansiedade matemática é um problema sobretudo emocional; os dois pedem apoios diferentes. Se a dificuldade continuar mesmo com a criança calma, peça à escola uma avaliação com profissionais.

Os pais podem passar a ansiedade matemática para os filhos?

Ela pode passar. Um estudo de 2015 encontrou que filhos de pais ansiosos com matemática aprenderam menos e ficaram mais ansiosos ao longo de um ano escolar, mas só quando esses pais ajudavam com frequência na lição, então o jeito de ajudar importa.

Devo parar de ajudar na lição de matemática se ela me deixa ansioso?

Não necessariamente. Ajude de forma curta e calma, faça perguntas em vez de reexplicar tudo e acrescente matemática relaxada, como jogos ou cozinha. Se não souber como um método funciona, pergunte à professora.

Quando devo me preocupar com a ansiedade matemática do meu filho?

Fale com a escola se as preocupações com a matemática voltarem sempre ou se a criança fugir da matemática na escola. Fale com o pediatra se a preocupação piorar, se espalhar para além da matemática ou atrapalhar o sono, as brincadeiras ou a ida à escola.

Fontes

Escrito pela equipe do Matobur na Edict Digital e conferido com estas fontes:

  1. Intergenerational effects of parents' math anxiety on children's math achievement and anxiety (Maloney et al., 2015) (abre em uma nova aba)Psychological Science 26(9), registro no PubMed
  2. Female teachers' math anxiety affects girls' math achievement (Beilock et al., 2010) (abre em uma nova aba)Proceedings of the National Academy of Sciences 107(5), registro no PubMed
  3. Math at home adds up to achievement in school (Berkowitz et al., 2015) (abre em uma nova aba)Science 350(6257), registro no PubMed
  4. Math anxiety, working memory, and math achievement in early elementary school (Ramirez et al., 2013) (abre em uma nova aba)Journal of Cognition and Development, registro no ERIC (IES)
  5. Understanding Mathematics Anxiety: investigating the experiences of UK primary and secondary school students, resumo executivo (Carey et al., 2019) (abre em uma nova aba)Centre for Neuroscience in Education, Universidade de Cambridge (financiado pela Nuffield Foundation)
  6. Research Suggests that Timed Tests Cause Math Anxiety (Boaler, 2014) (abre em uma nova aba)Teaching Children Mathematics (NCTM), cópia no youcubed, Universidade Stanford
  7. Assisting Students Struggling with Mathematics: Intervention in the Elementary Grades (guia de práticas, 2021) (abre em uma nova aba)What Works Clearinghouse, Institute of Education Sciences, Departamento de Educação dos EUA
  8. Parent praise to 1- to 3-year-olds predicts children's motivational frameworks 5 years later (Gunderson et al., 2013) (abre em uma nova aba)Child Development 84(5), registro no PubMed
  9. Help Your Child Manage Anxiety: Tips for Home & School (abre em uma nova aba)HealthyChildren.org, Academia Americana de Pediatria (AAP)
  10. Lei nº 14.254/2021: acompanhamento integral para educandos com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem (abre em uma nova aba)Presidência da República (Planalto)